Há um homem sentado
no centro exato da própria vertigem,
anotando perdas em planilhas invisíveis,
medindo afetos com régua de incêndio,
tentando domesticar o tempo
como quem põe coleira no mar.
Chamaram isso de prudência.
Chamaram isso de maturidade.
Mas era medo.
Medo vestido de método,
pavor usando gravata,
a alma inteira reduzida
a um contrato de prevenção.
Enquanto isso,
a vida — essa criatura indecente —
ria pelos cantos:
na ferrugem das estações,
na fruta apodrecendo doce sobre a mesa,
na boca dos velhos que já esqueceram os próprios triunfos,
nas cidades erguidas para virar pó.
Tudo cai.
Tudo escapa.
Tudo perde o nome.
Os impérios,
as promessas eternas,
as fotografias salvas em nuvens digitais,
os corpos definidos,
as opiniões absolutas,
o ouro, os credos, os algoritmos,
o orgulho de “ter razão”.
Nada permanece tempo suficiente
para justificar tamanho controle.
E no entanto
há beleza nisso.
Porque quando o homem finalmente percebe
que não existe muralha contra o abismo,
algo dentro dele desaperta.
Ele para de vigiar os próprios passos
como se o universo exigisse perfeição.
Para de pedir autorização ao amanhã.
Para de sacrificar domingos
ao deus ansioso das consequências.
Então atravessa a rua sem consultar o destino.
Ama sem calcular a ruína.
Dorme sem negociar com fantasmas.
Olha para a morte
como quem olha uma montanha distante:
real, inevitável,
mas incapaz de impedir a primavera.
E pela primeira vez
não tenta possuir a vida.
Apenas participa dela.
Como a fumaça participa do vento.
Como a onda participa do oceano.
Como a estrela participa da noite
mesmo sabendo
que já morreu há milhões de anos.
Talvez liberdade seja isso:
não vencer o medo,
mas parar de ajoelhar diante dele.
Aceitar que somos passageiros
num trem sem estação definitiva,
e ainda assim abrir a janela
para sentir o frio no rosto
como quem recebe uma bênção.
Porque a existência nunca prometeu sentido.
Só presença.
E às vezes,
quando o controle desaba,
quando o “predicado” falha,
quando não sobra nada além do instante —
há uma paz estranha e luminosa
em finalmente não precisar
salvar-se de tudo.